Rolhas e outras tampas


Me pediram para escrever sobre rolhas e demorei muito para decidir sobre uma abordagem para o tema, já que tem muitos influenciadores digitais e especialistas que já escreveram sobre o tema, explicaram de onde vem a rolha de cortiça e quais são as alternativas conhecidas.

Acredito que a grande maioria dos apreciadores já sabe que tradicionalmente se usa rolha de cortiça, que vem da casca da árvore chamada de Sobreiro e que o maior produtor de cortiça do mundo é Portugal, responsável por mais da metade do total. A cortiça é usada por sua flexibilidade e porosidade tal que veda para líquidos mas permite uma minúscula passagem de ar, o que é desejado no caso de vinhos de guarda.

O que muitos não sabem é que já existem rolhas sintéticas de alta tecnologia com porosidade similar à da cortiça e com a vantagem de os poros estarem uniformemente distribuídos pelo polímero (o que não ocorre nas rolhas de cortiça, já que é um produto natural e os poros são irregulares, chegando a ocorrer ocasionais rachaduras e vazamentos nas garrafas), porosidade que permite o uso desta rolha em vinhos de guarda. Algumas dessas rolhas sintéticas garantem um bom envelhecimento de até 25 anos dos vinhos.

Recentemente vi um anúncio sobre uma rolha feita a partir de polímeros de cana de açúcar, totalmente reciclável e diz ter pegada de carbono zero (ou seja, sua produção não polui). Além disso, é recomendada para vinhos de guarda até 15 anos. Assim como a rolha de cortiça, é de origem vegetal e renovável.

O avanço tecnológico atual permite que se escolha a tampa da garrafa de acordo com inúmeros fatores, que incluem preço final do produto e proposta de longevidade.
Um dos fatores dessa escolha, porém, acaba sendo a aceitação do consumidor. Se o consumidor, movido a preconceito ou não, não aceita rolha sintética (mesmo que seja essa super ecológica e reciclável), o produtor acaba por seguir usando em seus vinhos intermediários e topo de linha apenas rolhas de cortiça. Consumidor tal que, mesmo que apresentado com todos os argumentos científicos e ecológicos envolvidos na escolha da tampa, ainda assim muitas vezes não se convence.

Por falar em argumentos científicos, li recentemente um estudo que concluiu que não é necessário manter a garrafa na posição horizontal (estamos falando das garrafas com rolha de cortiça), pois a umidade contida no espaço entre o vinho e a rolha é suficiente para manter a rolha úmida. A recomendação de manter a garrafa na horizontal mantém-se para longos períodos de maturação pois descobriram que há um aporte de compostos fenólicos da rolha ao vinho. Em outras palavras, não precisa, mas pode fazer diferença em longo prazo. O que é comprovadamente fator essencial para o bom armazenamento e maturação dos vinhos é a temperatura.

A tampa rosca está na outra ponta desse assunto. Moderna e mais fácil de abrir essa tampa impede quase que totalmente a passagem de ar, então é mais usada em vinhos com proposta de serem bebidos jovens. Essa é uma tampa que ainda sofre com muito preconceito, muitos acham que “se tem tampa rosca, o vinho é inferior”. Na verdade, é uma questão de proposta da vinícola, se é para bebê-lo jovem, porque precisaria de micro oxigenação através da rolha? É mais barato que a rolha sim, mas isso não tem nada a ver com a qualidade do conteúdo. (Posso em outro momento discutir o que é entendido por qualidade inferior e superior e estilos diferentes de vinhos, fica para a próxima)

Há também umas tampas que são de plástico por fora com cortiça em contato com o vinho, geralmente usada em vinhos licorosos (ou fortificados, como preferir), porque são vinhos que passam mais tempo abertos e assim é mais de abrir e fechar de novo depois.

Em conclusão, o como a garrafa é fechada não está diretamente relacionado à qualidade do vinho, mas sim ao estilo de vinho. Escolha o vinho pela variedade, região, preço, pelo rótulo se quiser (afinal, tem horas que bate a indecisão e acabamos por dar crédito ao designer), mas não se deixe influenciar pela tampa.

Dica: para abrir tampa rosca com mais facilidade, segure a cápsula por baixo do picote.

Fontes:
http://www.nomacorc.com/select-green/
http://revistaadega.uol.com.br/artigo/em-guarda_9901.html

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